Com toda repercussão que o terremoto que assolou o Haiti no mês de janeiro de 2010, fiquei imaginando como seria o gerenciamento desse tipo de situação, o que caracterizaria essa iniciativa e o que deveria ser feito. Fiz uma pesquisa e compilei algumas informações interessantes que servem como base para o estabelecimento do programa de gerenciamento dos diferentes projetos.

A primeira coisa é entender o que é um desastre: por definição desastre é o resultado de eventos adversos, naturais e/ou provocados pelo homem, causando danos humanos, materiais e ambientais com conseqüentes prejuízos econômicos e sociais.

O que caracteriza um desastre:

  • Insuficiência de recursos humanos e materiais;
  • Escassez de meios de transporte de vítimas;
  • Meios de comunicação inadequados;
  • Inexistência ou não-respeito a cadeia de comando;
  • Interferências externas;
  • Falta de coordenação dos órgãos de atuação.

Tendo como exemplo a situação que está sendo vivida pelo Haiti, como lidar com um desastre deste tamanho? Como trabalhar de forma coordenada e eficiente para restabelecer a ordem?

O desastre no Haiti:

  • envolve a maior cidade do país, com cerca de 3 milhões de habitantes, completamente destruída;
  • provocou dezenas de milhares de mortos, muitos ainda abandonados nas ruas ou sob os escombros;
  • existem vítimas abandonadas nas ruas;
  • há falta de água, comida, energia elétrica, meios de comunicação, etc;
  • transporte está seriamente comprometido.

 Necessidades de ajuda ao país:

  • ajuda médica e humanitária;
  • suprimentos básicos (comida, água, remédios);
  • contingente militar;
  • apoio aéreo;
  • recursos econômicos (doações).

 Como gerenciar isso tudo? O gerenciamento desse tipo de situação é baseado em 8 frentes principais:

  1. Identificar os responsáveis pelos planos de ação imediata (planos de resposta ao desastre: plano de reconstrução, plano de prevenção e prevenção de futuros desastres);
  2. Coordenação da assistência internacional;
  3. Comunicações;
  4. Assistência médica;
  5. Identificação das vítimas da catástrofes;
  6. Segurança;
  7. Cooperação fronteiriça;
  8. Uso das lições aprendidas de outros desastres similares.

Identificação dos responsáveis

Um princípio fundamental da gestão de desastres e assistência internacional é que é de responsabilidade do país atingido tomar a iniciativa de requisitar a assistência internacional (via ONU – Organização das Nações Unidas) e então coordenar essa assistência. Um agravante nesse rocesso é que na maioria das vezes o governo desse país também  foi paralisados pelo próprio desastre. Para esses casos normalmente a ONU envia sua equipe de Avaliação de Desastres e Coordenação (UNDAC) para assegurar o início da assistência internacional. No caso do Haiti, isso foi acelerado pela presença das tropas da ONU no território Haitiano.

Coordenação da Assistência Internacional

A Assistência Internacional é coordenada em grupos de afinidades para uma melhor resposta, coordenação e controle. Normalmente a ONU (com seu OSOCC – Centro de Coordenação de Operações Local) provê coordenação tática ou auxilia alguma outra agência internacional ou o governo local para esse fim. Para essa assistência estão responsáveis os seguintes órgãos:

a. Coordenação geral – ONU (Organização das Nações Unidas) e IOM (Organização Internacional de Migração)

b. Água, saneamento básico e higiene – Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância)

c. Abrigos de emergência – IFRC (Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e Crescente Vermelha)

d. Logística  – WFP (World Food Programme)

e. Telecomunicações e TI – Unicef e WFP

f. Saúde – OMS (Organização Mundial de Saúde)

g. Alimentação e Nutrição – WFP (Programa Mundial de Alimentação da Nações Unidas)

h. Segurança – OHCHR (Alta Comissão dos Direitos Humanos) e Unicef

i. Núcleo de Recuperação/Reconstrução  Inicial – UNDP (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas)

Comunicações

Uma das premissas do gerenciamento de desastres é que as comunicações (telefones e celulares) não estarão funcionando suficientemente bem e ações de restabelecimento das comunicações devem ser planejadas. Na prática isso raramente é feito, o workaround normalmente é feito com o uso da comunicação via satélite que as agências internacionais utilizam, bem como daquela vinda com o apoio militar.  Como exemplo, veja o “Engineers Race to Restore Communications after Haiti Quake”.

Assistencia Médica

Devido as características dos desastres é necessário a rápida coordenação e atuação na montagem de toda a estrutura de suporte à hospitais de campanha para suprir casos emergenciais e reduzir a taxa de mortalidade daqueles que foram atingidos pelo desastre.

Identificação das vítimas da catástrofe

É um outro fator importante a ser gerenciado; a identificação de vítimas é feito utilizando o principio do ‘ante-mortem x post-mortem’ – registros anteriores são comparados com registros atuais (lê-se registros como sendo registros dentários, raios-X, impressões digitais e reconhecimento facial) para se tentar identificar as vitimas.  

No exemplo do Haiti, as informações sobre registros dentários, raios-X e impressões digitais são praticamente impossíveis de serem feitas e o reconhecimento facial cada vez mais difícil. Um outro agravante dessa situação é o uso de valas comuns para os cadáveres. Muitas pessoas nunca serão identificadas.

Segurança

A segurança é sempre um grande problema na gestão de catástrofes. A manutenção da ordem pública é uma responsabilidade nacional. Quando esse problema excede a capacidade do governo lidar com eles – o que provavelmente já era o caso do Haiti – os militares são normalmente envolvidos.

Há ainda um risco muito elevado de que a ajuda não chegue rapidamente aos necessitados, o que pode ocasionar distúrbios na lei e na ordem, e obrigar as forças estrangeiras a usar armas para se proteger.  Além da segurança da população, a segurança à logística é essencial para o rápido acesso e fornecimento de suprimentos onde se faz necessário.

Cooperação Fronteiriça

Planeamento da gestão de desastres inclui o acordo prévio de cooperação trans-fronteiriça para garantir que a assistência não fique parada em nenhuma fronteira, e seja incapaz de cruzá-las devido à regras ou leis de importação/exportação que não tenham sido previamente classificadas. Outro fator importante é a melhor utilização do espaço aéreo provendo liberações coordenadas de acesso a fim de reduzir distâncias.

Uso das lições aprendidas de outros desastres similares

Pelo menos duas lições importantes serão aplicadas:

a) Sobreviventes querem ficar perto de onde eles viviam – ser movido em campos não é a opção preferencial dos sobreviventes, mas muitas vezes é a opção escolhida pela assistência internacional ou pelo governo local devido a facilidade de controle e suporte a essas pessoas.

b) Uma decisão muito difícil deverá ser tomada poucos dias depois do desastre – quando parar de procurar por sobreviventes e trazer a maquinaria pesada para a limpeza dos escombros? A principal causa de morte entre vítimas presas nos escombros é a desidratação, levando a vitima ao óbito de 4 a 7 dias.

Fontes:

UN: United Nations,

FEMA: Federal Emergency Management Agency,

BBC: British Broadcast Company

PMI

PMI Project Management Methodology for Post Disaster Reconstruction

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